Encontrei esses escritos perdidos
Ano Novo
Que fazem essas pessoas?
Lançam fogos
Dançam chuvas
que comemoram?
Fugazes loucuras
amores carnavalescos
refaz-se a esperança
(a que não existe em meu peito)
[e nem existirá]
Aqui: do lado de lá do muro
fecham-se as portas
partem o silêncio profundo das vozes
as sirenes
UA-UA-UA-UA-UEA-UEA-UEA-UA
Passa cortando a madrugada
o meu coração
assustado
como o de um cachorro
uiva.
Renato, 31.12.2010 22:19
Poema à voz afinada
Não pode ser minha amiga?
Querer-me como a um irmão,
assim como eu te quero;
em grito, em apelo, em vão?
Não posso gritar, tu te afastas
Não posso sussurrar, tu reclamas
Não posso comer, tu vomitas
Não posso zangar-me, tu complicas
O que posso fazer?
Posso nascer,
crescer em teu seio;
poetizar em tuas linhas,
Eu posso me satisfazer?
Tua própria existência diz: não!
e teu não, não me interessas
eu nunca me importo
e repito
o
cantar.
Renato, 12.01.2011
Na cidade
Vivo na cidade,
amanheço todo dia
ao lado da eternidade
(tanta eternidade)
Pra onde foi minha alegria?
Vivo na cidade,
e nenhuma mocidade;
nada tenho a reclamar
choro mansinho o chôro do violão
violando o violar
Vivo na cidade
que infelicidade
poemas pra ninguém
vou recitar
Renato, 26.12.2010
Blog do Renato
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Era quarta-feira. Mais uma dessas. Verônica bate. Eu sei que ela vem, como de costume, as quartas e já não me desespero ou me surpreendo com isso. Num gesto absolutamente comum, sem meio, ela tira o sutiã e diz pra eu apalpar-lhe os seios, mas não com essas palavras. Não me excito, claro. Tão simples um toque de pele, nada além dos outros dias - não só às quartas, mas também terças, segundas, domingos, sábados - e meus dias de parco divórcio são regados a uma traição quase incestuosa: transar com minha cunhada. De início, surpreendente. Verônica é casada há 5 meses. Ela é de tal modo infeliz que meu próprio desprezo com a minha própria vida são risíveis. O marido, Jorge Augusto, é fidedigno ao amor, ainda que unilateral, pela esposa. Não posso aferir com tanta parcialidade o nível de amor que envolveu esses dois corpos no ato do matrimônio - mas não devo duvidar-lhe o suspeito; digna alma que arrasta o corpo por onde lhe acomode melhor o pensamento.
Verônica, hoje, não quis apenas transar. Levantei-me suave do sofá, um pequeno apartamento de duas divisões: cama e todo o outro resto. Acho desrespeitoso levantar-se após o sexo. Verônica me detalhou o trabalho. Disse que naquele dia havia sido abordada por seu chefe duas vezes na redação. Ele inqueria a todos sobre um suposto furto - que levara a demissão de um dos melhores colegas de Verônica. Todos suspeitavam que ela traía o marido com o desempregado, Matias. Esse estava noivo de Mônica e o acontecimento desgraçou tanto a carreira como a vida sentimental, essa íntima indissociável da labuta - ainda que me provem o contrário.
Não. Nada é simples assim, penso. No entanto, não retiro os olhos da pia, após longas cusparadas em direção à mal lavada. Verônica, nesse tempo em que contava, já havia se vestido por completo, e terminado o serviço - como o de uma puta, sim - fora embora deixando nada, senão a própria lingerie.
Por mais alguns minutos esperei no todo o outro resto da casa. Era quarta-feira. Mais uma dessas. Talvez Verônica batesse de volta e no seu silencio compadecido - tanto por mim quanto por ela - me rendesse mais algumas horas dentro de casa. Na rua, por onde eu passava apressado, as pessoas mal notavam como o mundo estava vazio. De objetos. Poucos eram aqueles que não se desesperavam, alguns ao meio feio e em pouco tempo de observação cheguei ao telefone público. Disquei. E retornei à casa. Continuei esperando no todo o outro resto.
Débora bate. Exito abrir. Eu sei que é ela quem vem, ninguém mais sabe desse outro mundo em que vivo. Talvez nem eu o conheça - sabendo que ele não passa de 30 m² sinto um certo pânico. Se eu me perguntasse com profunda convicção, talvez Débora fosse a resposta pra tudo. Me perguntariam "Como está?" e eu diria "Débora", todos entenderiam. Infelizmente, a convicção vive de costas para a pergunta. Quem está convicto tampouco pode perguntar algo e se o faz é por vaidade.
Débora deitou na cama. Nua, eu desenhei mapas por seu corpo. Com a ponta de uma caneta preta. Ela me perguntou o que eu sentia. Demorei um pouco pra responder. Não foi muito, não passou. Débora foi embora, logo após. E eu encolhi os braços entre as pernas, na cama do outro lado de todo o resto.
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
"Chega o domingo de novo. Ele e Bev Shaw estão concentrados em sua sessão de Lösung. Um a um ele vai trazendo os gatos, depois os cachorros: os velhos, os cegos, os mancos, os aleijados, os mutilados, mas também os jovens, os sãos, todos os que chegaram ao fim de seu período. Um a um, Bev toca, conversa, consola e sacrifica. Depois se afasta e fica olhando enquanto ele encerra os restos numa mortalha de plástico preto.
Ele e Bev não falam. Ele já aprendeu, com ela, a concentrar toda atenção no animal que estão matando, dando-lhe o que não tem mais nenhuma dificuldade de chamar pelo nome correto: amor.
Amarra o último saco e leva até a porta. Vinte e três. Sobrou só um jovem cachorro, aquele que gosta de música, aquele que, com meia chance, já teria enveredado atrás dos companheiros para dentro do prédio da clínica, para dentro da sala de operações com sua mesa de tampo metálico, onde ainda paira a mistura de cheiros intensos, inclusive um que ainda não sentiu na sua vida: o cheiro da expiração, o cheiro macio e breve da alma libertada.
O que o cachorro não entenderá nunca (nem num mês inteiro de domingos!, ele pensa), o que seu focinho nunca lhe dirá, é que se pode entrar em uma sala absolutamente comum e nunca mais sair. Algo acontece naquela sala, algo não mencionável: ali a alma é arrancada do corpo; paira brevemente no ar, se torcendo e contorcendo; depois é sugada para longe e desaparece. Será incompreensível para ele, essa sala que não é uma sala, mas um buraco por onde se escorre para fora da existência.
Vai ficando cada vez mais fácil, Bev Shaw lhe disse uma vez. Mais difícil, mas mais fácil também. A gente se acostuma com as coisas ficando mais difíceis; a gente acaba não se assustando mais quando o que era o mais difícil do difícil fica ainda mais difícil. Ele pode salvar o jovem cachorro, se quiser, deixar para a semana seguinte. Mas chegará a hora, isso não pode ser evitado, em que terá de trazê-lo para Bev Shaw na sala de operações (talvez o traga nos braços, talvez faça isso por ele) e o acariciará, abrindo a pelagem negra para que a agulha penetre na veia, sussurrando para ele, dando-lhe apoio no momento em que, surpreendidas, suas pernas cederão; e então, quando sua alma sair, ele o dobrará e embalará em seu saco, e no dia seguinte o levará para as chamas e cuidará para que seja queimado, eliminado. Fará tudo isso por ele quando chegar ua hora. Será pouco, menos que pouco: nada.
Ele atravessa a sala. "Foi o último?", Bev Shaw pergunta.
"Tem mais um".
Abre a porta do compartimento. "Venha", diz, curva-se, abre os braços. O cachorro arrasta a parte traseira alejada, fareja seu rosto, lambe sua face, seus lábios, sua orelha. Não o detém. "Venha".
Levando-o no colo como um carneiro, entra na sala de operações. "Achei que ia deixar esse para a semana que vem", diz Bev Shaw. "Vai desistir dele?"
"É. Vou desistir"."
J. M. Coetzee - Desonra
segunda-feira, 19 de março de 2012
Meus amigos
Olá,
meus amigos.
Chego manso, quase inotada sombra. Digo meu oi paciente, aperto as mãos de uns e aceno para os menos conhecidos. Olá. Cheguei. Mais uma vez quis voltar, e vim pra dizer e desconsertar o que conserto já tinha, mas, com outros propósitos, a resumir o prosado de vez.
Olá, meus amigos. Que bom vê-los novamente, ainda que a barba de uns esteja mais afinetante e o cabelo de algumas um pouco menos alisado. Ainda que meu paletó não tenha um zelo tão fino quanto aquele deixei em vossas lembranças, e ainda que perdão fosse a mais plausível das apresentações. Lembro-me e fico a me queixar de tal sonhos que vocês me renderam. Tal face, lisa face de neném, a qual tive onde beijar e donde também dei a bater e minha mão nunca foi por isso machucada. Agora encontro meus dedos fatigados, minha pouca esperança no grito, e um retorno tímido a uma face barbuda, com pelo encravados.
Uma das pessoas me sorriu diferente. Em meu retorno, seus olhos quase pularam fora de seu rosto. Senti-me abraçado pelos olhos, eu, que naquele instante, estava com meus braços ocupados. Apenas assenti. Assentir que é o verbo substitutivo e correlato a verbos um tanto quanto elusivos. Amar, sofrer, abraçar, cheirar, exalar, conceder, nascer, pensar, repensar, retroceder, chorar, afirmar, negar, concordar e alcançar. Verbos pouco existentes - são muito mais ideias do que verbalizações. Estão ai, pra serem usados. Por quem? Não por mim.
Contudo, deixemos este debate de lado. Já chego enrugado, demasiado encrispado para falar de com meus bondosos amigos. Esses que me esperaram aqui sentados e pediram a canção quando eu chegasse e eu, sorrateiro, disse: "não trouxe violão." Os olhos que me abraçaram se fecharam moribundos, eu apenas sentei e me senti aliviado no convívio. Há de ser convívio, essa manina de satisfazer e chatear. Tudo ao mesmo tempo, ou em poucos minutos.
meus amigos.
Chego manso, quase inotada sombra. Digo meu oi paciente, aperto as mãos de uns e aceno para os menos conhecidos. Olá. Cheguei. Mais uma vez quis voltar, e vim pra dizer e desconsertar o que conserto já tinha, mas, com outros propósitos, a resumir o prosado de vez.
Olá, meus amigos. Que bom vê-los novamente, ainda que a barba de uns esteja mais afinetante e o cabelo de algumas um pouco menos alisado. Ainda que meu paletó não tenha um zelo tão fino quanto aquele deixei em vossas lembranças, e ainda que perdão fosse a mais plausível das apresentações. Lembro-me e fico a me queixar de tal sonhos que vocês me renderam. Tal face, lisa face de neném, a qual tive onde beijar e donde também dei a bater e minha mão nunca foi por isso machucada. Agora encontro meus dedos fatigados, minha pouca esperança no grito, e um retorno tímido a uma face barbuda, com pelo encravados.
Uma das pessoas me sorriu diferente. Em meu retorno, seus olhos quase pularam fora de seu rosto. Senti-me abraçado pelos olhos, eu, que naquele instante, estava com meus braços ocupados. Apenas assenti. Assentir que é o verbo substitutivo e correlato a verbos um tanto quanto elusivos. Amar, sofrer, abraçar, cheirar, exalar, conceder, nascer, pensar, repensar, retroceder, chorar, afirmar, negar, concordar e alcançar. Verbos pouco existentes - são muito mais ideias do que verbalizações. Estão ai, pra serem usados. Por quem? Não por mim.
Contudo, deixemos este debate de lado. Já chego enrugado, demasiado encrispado para falar de com meus bondosos amigos. Esses que me esperaram aqui sentados e pediram a canção quando eu chegasse e eu, sorrateiro, disse: "não trouxe violão." Os olhos que me abraçaram se fecharam moribundos, eu apenas sentei e me senti aliviado no convívio. Há de ser convívio, essa manina de satisfazer e chatear. Tudo ao mesmo tempo, ou em poucos minutos.
sábado, 28 de janeiro de 2012
Quando olhei da janela do quarto, o número 402, logo abaixo do toldo, era possível detectar que já tinha alvoroço causado pelo tinir (nada brando) da descarga do vaso sanitário sendo quebrada. Estou ficando esquizo? Não é possível - se sento aqui, o quarto sem mobília, eu e a cadeira num contemplar sem fim das ruas que vão adiante com suas luzes e as pessoas com farda azul que sobem pelas escadas, mofam o elevador e num segundo ou outro, quem sabe, baterão à campainha. Encostei minha cadeira naquela porta, desgaste, dava pra ver o óleo da madeira escorrendo e era como sangue. Fecho os olhos e o que acontece? Noite passada coloquei outra ideia errada na cabeça: ficar em Goiânia. É impossível. Esse ar parece mais denso, mais pesado e impávido ao pulmão. TOC TOC TOC.
Abra la puerta! Policia!
Vi isso num filme de James Bond. Muito são emblemáticas essas coisas. Nem todo mundo que comete crime é procurado pela polícia. Oxalá, eu jogasse noutro time. "O que é?"
"Os moradores denunciaram, disseram que tem alguma coisa aqui no seu apartamento, ouviram uns barulhos..."
"Ah é?"
"É. Podemos entrar?"
"À vontade"
Arantes O+. Muitas são também as nomenclaturas desses homens. A cara rechonchuda e nada profissional deles, entre outras coisas, um ar de vamos tirar na sorte quem é mais bandido. Cara ou coroa. Eles entram e ficam a me olhar e olhar o vaso.
"O vaso está quebrado, eu o quebrei" olha bem nos meus olhos o Arantes O+, o outro é o Herculano AB.
"Tá aí."
"É... como o senhor quebrou?"
"Subi em cima, nada demais."
"Hum. Bom, a gente vai registrar a ocorrência da denúncia - por favor os documentos?"
"Quais?"
"Identidade, carteira de motorista, CPF, comprovante de endereço, qualquer coisa que nos ajude"
"Ajude a que?"
"Ajude o meu trabalho, senhor, queira, sem mais demoras, apresentar a documentação!"
[...]
"Certo?"
"Certo."
Sentei no vaso quebrado. Minha bunda é espetada por uma ponta de lança de vaso, mas não me incomodo. Já o fiz sentir piores. Trago ou não trago? Se tragar, ou que tragarei? Maconha, cigarro, crack, o que? Não tenho nenhum dos três e se tivesse. Nada vale tanto como essa paz sozinha que invade quem é sozinho. Paz de uma vez na vida, depois de desmamado nunca mais, bezerro. Nunca mais. Chequei minha marreta na porta do banheiro - ninguém a viu, grazie. Abraçada a ela estava Ester. Tive um pensamento poético num estante - uma comparação entre a marreta e a garrote - eram como duas amantes. Só que a marreta era hermafrodita ou travesti. Com certeza ostentava o pênis entre as pernas. Não beijo mortas, por que será que continuo matando mulheres? Um desejo sombrio me apetece: caminhar à rua e deixa a defunta aqui, mas tenho de a levar comigo. Vestir hei-la.
Procurei pelo radinho de pilha. Rádio em Goiânia? 92.7 para maricas. 106.7 para meus alvos. 99.5 para os decentes. 90.1 para os nem tanto. Tudo bem. Sem música: eu mesmo cantarolo. Qual? Aquela, como era? Que o Pavarotti cantou nos jogos de inverno... bem... (...) me lembrarei. Devo despir o corpo da donzela com cuidado. Tirar de teu o rosto o sangue pardo e outra secreções indesejáveis de minha pele. Os olhos dela já desfalecem num estranho cromo cor de turquesa. Amarro bem as luvas e as ato com uma fita. Devo limpar pelo menos os olhos da menina, e também sua boca. Nua até parece um chupa cabra. Roupa só podia ser uma invenção de homens. É tão humana essa imperfeição. Tão digna de ser olhada e enojada ainda depois de despida, só pelo rancor prévio de a desejar mais uma vez, se fartar e enojar e assim sucessivamente. Ainda tenho dito: o vinho tinto ou branco é mesmo de vomitar.
Eu a pus em meus braços e segurei como se ele estivesse tendo um infarto. Conversei dois segundos com ela na minha cabeça. A conversa foi a seguinte:
"Que se passa em seus olhos?"
"Passa tua marreta."
A resposta me fez a deixar um pouco de lado e esconder a marreta novamente. Agora eu a coloquei na janela (aonde todos pudessem ver.). "Pronta para partir?" e daí veio um consentimento que varreu os primeiros pulsares de ar denso e inefável em meus pulmões. A música que zunia ao longe, já as nove da noite, nesse sábado, zunia tão clara que pus me a soletrar sua melodia. Num ato solfejante, num dado musical, uma certa polifonia nos olhos, orelhas, pés, essa que toma os meus braços e em meus braços deita Ester com seus 85 centímetros de busto, desnudos para o meu prazer e a irreverente imagem às ruas deste centro, rouba a furta de muitos. Inexoravelmente Fulano pergunta "o que ela tem?"
"Passa muito mal, eu a caminho ao posto de saúde."
"Ora, por que não chama o SAMU?"
"Hoje é sábado, eles não se preocupam com uma mulher tão nova com febre."
"Deixe que eu te leve no meu carro, é melhor pra ela."
Não precisa.
"Então vamos."
(...)
A menina tinha um traumatismo craniano, vários ossos e o costelas fraturados. Ela não era o que se poderia dizer de morta ou viva, noutra espécie, pediram para que eu chamasse o IML para uma biopsia. Recusei veemente e pedi dez minutos a sós com a defunta. Coloquei a única cadeira para visitas que havia na sala de UTI bem rente à parede, próxima à janela. Fiquei olhando a rua que ia a mil metros à distância, daqui á torre que mostra as horas aos goianienses. Uma sirene encostava suas fermatas na porta do hospital e dela corria um maca. Meu olhar, mudo, tateou muitas texturas na paredes, antes que eu virasse e perguntasse a Ester.
"E se tu não fosses minha filha?"
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